A pele
Minutos, dias, ponteiros. Aquela vontade de ser o que não é, de ter nas mãos o que não tem, de berrar no meio da rua, sair cantando alto no meio da calçada, da sala, da mala, da bala, de toalha. Dizer todas as verdades ao mesmo tempo que a cabeça pensa, pensar e falar. É e foi e pronto e bom. Não ao medo, não à medida, não à noção. Noção de nada, noção não existe. É a vida, é uma. Fazer fotos com memórias, recitar poesias sem rimas com beijos que incham a boca e elas não voltam a ser o que eram. Falar com 2 línguas pra que ninguém deixe de entender, cantar em pensamento e tocar as paredes até chegar ao chão. Sonetos feitos a dois sem raciocinar, uma prosa, várias prosas e todos os litros de vinho e de cerveja. Correr sem meias sem solas, cair e ralar os joelhos. Falar, olhar e dar a volta em torno da Terra com o riso. A vida é no singular. As vidas. Todas, umas, algumas, duas, outras, estas, nossas. Adeus, o mundo girou. Olá.
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o vão
Ela carrega dois livros na mochila, um pra cada humor. Quando nenhum a aquieta, permanece estática olhando fixamente as listras na camiseta do moço sentado no trem, visitando na memória as palavras ditas bem na frente do seu rosto pelos olhos mais profundos. Como dizem nas canções, queria parar o tempo, o tempo que leva, o tempo que demora, que passa em um segundo e meio, o tempo que leva o acaso na mochila e o derruba sobre as cabeças distraídas que transitam feito loucas pelos caminhos estreitos. Vezes flores, verde, sol e sons de bicho. Vezes barro, barranco, inverno a chover. Os olhos que riem, lindos, que brilham, que abaixam nos segundos que a memória vem dizer que ainda há um pouco de dor, que a sugam como um buraco negro, eles próprios negros, outras dimensões, um outro sistema solar bem ali, e não aponta. Quem vai dizer se é de encher o copo? Qual a porta certa pra descobrir o inteiro, o raro inteiro? Que perguntas pairam sobre as cabeças cheias dos números do mundo da semana? O espaço, o asfalto, os objetos espectadores de uma noite, aquela alma feita de ímã, feita de coisas que o escuro do mundo esconde, a caneta vermelha, as coisas que ela ainda precisa contar pra si mesma, o sentimento molhando a alma, as sensações que molharam a pele, as flores amarelas na árvore da esquina. A pele ainda arde, toda a superfície. No banho canta, fecha os olhos e esquenta a água do chuveiro elétrico, se lembra. Abre o vitrô pra sentir o frio confundindo o arrepio que veio. Dias e noites. Um copo na mão esperando o barulho d’água.
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arde à tarde
Poeta, cadê você?
Estou com saudade.
Te procuro na estante,
vamos conversar…
Me responde, aconselha,
olha cá…
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Lucky Strike
Eu andava pedindo alguma onda que me desse um caldo e me fizesse ficar toda ralada de areia. Agora ando vendo de longe a onda. Aquela onda, já vi tantas vezes, sempre de longe. E ela sempre acabava no meio do mar. Este marasmo que nomeia os meus dias está ficando embaçado e seco. Praia de tombo é tão melhor.
Um dia desses lembrei que nunca te escrevi, sempre começava e não conseguia terminar. Você merece cartas, e às vezes só consigo escrever com caneta no papel. Nada desses escritos aqui em que não se pode tocar as palavras, colocar as mãos no papel que já esteve nas mãos e nos olhos do outro que escreveu.
Eu não sou viciada em cigarros. Senti vontade de fumar e andar numa rua que eu nunca andei antes, num lugar onde nunca estive antes. Parar, sentar e não dizer nada. A vista verde e vento. Você do lado, calado e alguns segundos. Sentada abraçando os joelhos me lembro de todas as conversas e quero rir. Sinto algo tremendo por dentro. Eu tentando lembrar como é sua voz. Da primeira vez que nos falamos, não imaginava como sua voz soava diferente do que eu imaginava. Seu rosto é bom de olhar. É como quando se olha alguém que gosta, se enxerga beleza até onde não tem.
Estou aqui com milhões de palavras e não consigo escrevê-las. Percebo um medo de que você leia. Você está lendo. Eu escrevendo e eu não conseguindo mais. Eu não tenho medo de nada. Eu, aquela velha música e você. Me dê uma razão.
Me dê as imagens que você imagina, exatamente, com todo o detalhe que você pede. Escreva um poema em mim que eu não consiga mais apagar. Esqueça o passado e não viva o futuro agora e já. Coloque a música no ‘repeat’ até não ouvir mais nada. Vou ficar nas minhas ruas diárias vendo todos passarem sem meu cigarro. Todos passarem e os dias passando. Enquanto isso.
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Desvarios

A tarde passa e eu estou há horas separando as músicas que quero te mostrar. A janela é uma TV que passa zilhões de gotas caindo e não molhando. Cada hora que passa é uma a menos, me sinto bem pensando nisso. Imaginar o que você deve estar fazendo é tão inevitável quanto desejar uma torta de blueberry num café americano. Noto no chão da sala um quadrado formado por um raio de sol. Vou até a TV janela e a chuva desce iluminada. Procuro um arco-íris, queria sorrir pra você e dizer que é bonito. As palavras nascem sem parar, todas tão novas e frescas que não consigo fazê-las frases. Temo por um minuto a solidão delas, e se elas viverem sozinhas? Me cansei de pensar e as palavras continuam nascendo, só porque sua simplicidade é tão colorida que faz barulhos e viram notas e viram as nossas músicas preferidas, as músicas que você nunca ouviu, que eu não sei que existem, que vão fazer eu me lembrar de você e lembrar-te da madrugada que passamos juntos procurando as constelações mais difíceis, rindo da exaltação que voava em volta de todos ali, rindo. Sorrindo com a maravilhosa história que você leu num livro mal julgado pelo título, e me contou, tão expressivo. Expressivo como só você parece ser. Os minutos passam devagar aqui no longe, continuo deixando tudo para a última hora. Continuo a mesma e não me sinto no mesmo lugar. Sinto.
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Mel
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Bifurcação
Foi nessa última vez que te vi que ouvi aquele “click!” no ouvido. O clique que liga a engrenagem das minhas mãos querendo transmitir em palavras escritas todas as sensações e sopros que chegaram em mim. Você me confunde e cá estou eu tomando um porre de ilusões iguais àquelas outras, mas que fingem ser um pouquinho mais maduras. Você me confunde, e de repente eu estava lendo sobre signos e me alimentei com as características do seu. O meu signo não se parece muito com o que eu acho que sou. Eu fui ler sobre signos! A entrada para o louco e psicodélico mundo dos que tornam o coração num pandeiro maluco nas horas mais impróprias. Eis que ela surge, grande e embaçada, a entrada. Dilataram minhas retinas, e agora não consigo lembrar do teu rosto quando fecho os olhos tentando pedir um sonho em alguma noite. Dessa última vez eu pude ver através, talvez efeito das substâncias artificiais, paraísos artificiais, um livro. Paraíso natural é o amor, ou a paixão, ou o que quer que faça alguém sorrir bobo, totalmente envolto em clichês, e despreocupado. Você me confunde. Minha insegurança sempre tão pessimista agora obedeceu e está calada e dorme. Mas ela está dormindo e só. Vamos nos fingir de mortos. Eu esqueci todos os meus breques e não quero mais ficar longe, tão longe tanto tempo e pouco junto. O medo de sofrer é um velho clichê amigo. Já sofro do maior de todos eles e nada é pior.
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eu nem sei como chamar.
Vivo pensando em ir embora, eu vivo pensando no tempo que perco. Perco nas horas de ganhar dinheiro, essas pessoas ingratas, essa gente que nada sabe do mundo, do “lixo ocidental”. Vivo pensando que a qualquer momento tudo vai mudar, e vou dar um tempo na arte de reclamar. Vou reclamar de saudade, só saudade. Esse tédio, essa cidade enorme e seca. Chove, chove, e ela ainda está seca, difícil de engolir, difícil de passar, é seca. Seca como teus sentimentos não-demonstrados, como uma decepção com um amigo, como aquela cara que eu fico quando me vejo dentro da realidade da sua frieza. Ultimamente tenho conversado bastante comigo mesma, me convencendo a uma mudança radical. Deixar todos vocês de lado, pintar o cabelo, praticar um esporte pesado e meditar. Mas de novo, eu penso em ir embora. Vamos embora? Vamos pra outra cidade seca, e fria. Gelada. Muito cara, lá nós vamos penar, sem dinheiro. Vamos, just for a while. Você também está cansado, sua vida não é tão emocionante quanto parece, cansa. Cansou, não é verdade? Essa gente seca e fria que me vêem todos os dias, será que elas não sabem o que é o gosto doce? O que é água fria no calor? O que é deitar na grama ao lado da pessoa mais importante, e ser mordido por 9 formigas, mas está tudo bem, afinal vocês estão ali. Espero que eu possa sempre saber. Vamos passear, sem dinheiro, vamos sorrir. Deixa pra depois, vamos, diga tchau. Tchau.
Filed under: Segredos de Liqüidificador, Talvez eu discorde depois. | 1 Comment
Cantaria esta pra você.
“(…)
É que a sorte é preciso tirar pra ter
Perigo é eu me esconder em você
E quando eu vou voltar, quem vai saber?
Se alguém numa curva me convidar
Eu vou lá
Que andar é reconhecer
Olhar
Eu preciso andar um caminho só
Vou buscar alguém
Que eu nem sei quem sou
Eu escrevo e te conto o que eu vi
E me mostro de lá pra você
Guarde um sonho bom pra mim…”
(Amarante, fingindo que sabe exatamente como me sinto)
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sim
É só ter, pro valor evaporar. É só perder, pra chuva te desesperar.
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consolação.
Cubos de gelo derretem, viram água e evaporam.
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é
Eu olho pela janela
vejo a perfeição
isso, eu chamo de perfeição
mas tem uma antena na frente. Ela faz parte da paisagem da perfeição, a perfeição, o céu de um mundo que vacila e não tem certeza. Eu escolho olhar com novos olhos, com outros olhos, com olhos que eu quero que mudem de opinião, que mudem pra que tudo não seja tão previsível como sempre é, pra que esses olhos parem de olhar como se tudo fosse acontecer sempre do mesmo jeito, o mesmo fim pra todas as histórias. E a vida é tão apressada quando se quer fazer tudo com calma, a vida útil dos olhos que querem tanto olhar é tão curta.
Eu tenho que olhar, tenho que dar opções ao meu olhar. O mundo, esse céu que eu olhei ontem quando encostei na janela, essa antena, essa cidade, tudo pode acabar. Um velho clichê, sempre ele, mas pode acabar. E eu penso nisso todos os dias, e meus olhos querem olhar, querem que outros olhos olhem assim, e de outro jeito, e como quiserem. Meus olhos querem escrever nas paredes tudo o que eles vêem por dentro. Olhar, fazer. Meus olhos não querem mais olhar sem ver. Uma rima aqui, sem querer. Eu os deixo ver, eu os deixo enxergar da forma que quiserem. Enxergue. Mundo. Fim. Amanhã. Ou não. Ou sim.
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sour times
“(…) Am I what and why? ‘Cause all I have left is the memories of yesterday, Oh these sour times…”
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Parece
Ouvindo a mesma música há 3 dias. Ah, essa fase descontrolada.
Essa vontade de sair correndo e te levar pro parque, deitar na grama e rir do sol cegando os olhos. Levar uma caixa de chocolates e te ver comendo igual criança, como eu sei que você faria.
Passei o dia todo pensando em cada palavra que ouvi de você ontem, tentando achar uma brecha pra me encaixar, entre tantas risadas faladas.
É difícil, somos crianças inseguras. Dois corações com cicatrizes aparentes. Eu olho para o meu e te vejo as apagando com esses olhos que se fazem pequenos quando sorriem. E eles têm tanta facilidade. Não quero mais me perguntar o quê eles podem ser aqui. E é tudo tão rápido, que mesmo sabendo que é assim que sempre é, me assusta. Ligo para a amiga e peço conselhos que eu quero ouvir. Sofro por antecipação, é claro, ou não sou eu? Você diz que não dormiu essa noite, eu queria essa culpa.
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