“isso também vai passar”

“vai sim”.

quando, até quando? até um novo problema lindo e cheio de intenções surgir, disfarçado de mais novo melhor amigo. ele vai te distrair a ponto de você achar que finalmente esqueceu sua última sina. ou pode ser que esteja tudo lá, a mudança, a revolução, o inédito. o permitido, o qual a ninguém pertence ou pertenceu. ninguém pra fazê-lo te olhar com dúvida uma vez ou outra. ninguém pra ele comparar com você, ninguém pra te tirar da reta com um telefonema choroso. ninguém “certo” e você o “duvidoso”.

tune 1

Not the first
Not the last time
I’ve got a text
Always ready and fast
Wanna see me, movie, tunes
Beer
Nothing new,
Love to hear
Your stories,
to leave the bar
Think of kiss late night
Back, neck, far

20 anos blues

Ontem de manhã quando acordei
Olhei a vida e me espantei
Eu tenho mais de 20 anos

E eu tenho mais de mil perguntas sem respostas
Estou ligada num futuro blue

Os meus pais nas minhas costas
As raizes na marquise
Eu tenho mais de vinte muros
O sangue jorra pelos furos pelas veias de um jornal
Eu não te quero
Eu te quero mal

Essa calma que inventei, bem sei
Custou as contas que contei
Eu tenho mais de 20 anos

E eu quero as cores e os colirios
Meus delirios
Estou ligada num futuro blue

Os meus pais nas minhas costas
As raizes na marquise
Eu tenho mais de vinte muros
O sangue jorra pelos furos pelas veias de um jornal
Eu não te quero
Eu te quero mal

Ontem de manhã quando acordei
Olhei a vida e me espantei
Eu tenho mais de 20 anos

(Vitor Martins e Sueli Costa)

Carta para gaveta

Diana, será que é normal sentir vontade de morrer toda vez que vejo sua foto em miniatura nas atualizações desse site que amontoa “amigos”? Não digo vontade física, é vontade sei lá, vontade de nascer de novo só pra não ter que sentir essa saudade inédita e maior. É o que restou, como se você tivesse morrido, fora de alcance. Das mãos, dos olhos, das palavras até. Não sei de você, não sabes de mim, estou morrendo. Eu ando me divertindo à beça sabe, Diana? O sol brilha, tem água pra refrescar, as pessoas se amorenam. Se riem, cada dia algo novo pra fazer, tenho um montão de livros pra ler, o cinema não tem dado conta. Eu estou morrendo Diana. Morrendo de ter que respirar debaixo d’água. Você está viva, você e seus planos mirabolantes, sua vontade de viver na beira no mar. Você está viva, você continua aí sorrindo aquele sorriso que me faz parar subitamente no meio da rua sem razão aparente só de vir na memória dos olhos, mas não tem nada não, é só saudade. Você vive. Você olha com o olhar que vejo agora se descanso os olhos, o olhar que queima o dentro que tenho, o olhar que eu não esqueço nem se eu morrer, que faz da minha garganta um nó crônico completamente embrulhado. É saudade, Diana. Não dói. A saudade é por si só, não tem medidas calculadas por tempo mais tempo menos, ou condições. Saudade sem linha no horizonte, sem clichês das paixões diárias, o corpo que congela de ouvir sua voz naquele dia que acordei de um sonho de sonho e colorido. Saudade que me pergunta se você vai ressuscitar qualquer dia desses, qualquer ano desses, qualquer vida dessas, de qualquer maneira, só um sopro de vida, uma visão ao longe e você se mexendo com tanta alma, andando com seu corpo doce dançante, claro macio, suas roupas de algodão repetitivas, vejo você no meu guarda-roupa sem perceber. Saudade, Diana. Viva no meu mundo de novo, pode ser só pra saber se seus planos são vividos mais que sonhados, só pra saber qual livro te fez chorar desta vez, aonde você mora este mês, se já tem suas próprias chaves de novo. Me devolva a saudade sorridente, Diana, me perdoe por ser tão tolerante e bobo. Me nasça. E seja.

Luis.

Eu não aguento mais. Não aguento mais dar desculpas a mim mesma. Não aguento mais essas alegrias superficiais e a incompletude crônica que parece estar grudada nas minhas costas. Eu não aguento mais não conseguir mais reproduzir palavras, ver os meses passando e aquela luz que fazia criar qualquer coisa não voltar a acender, não aguento minha cara no espelho me dizendo que eu não sei fazer isso direito. Não aguento mais a vida sempre me puxando pelo braço, impedindo que eu dê atenção ao que realmente importa. Eu não aguento mais ter que ser alguém, ter que viver em função do dinheiro e fazer coisas que consomem o resto de inspiração que consigo achar dentro deste corpo. Eu não aguento mais ser gente grande com vida de adolescente, ser um nada pra alguéns que pensam ser tudo. Não aguento essa enxurrada de mentiras, essa mania que as pessoas têm de mudar de ideia do dia pra noite como se fosse a coisa mais normal do mundo. Eu não aguento mais ter tudo  e faltar algo, correr em direção a algo que eu nem sei se existe. Parar em sombras que me queimaram e não saram nunca, as cicatrizes que espantam a pureza ou qualquer coisa escondida atrás de um sorriso que invade a alma como um corpo afogado no mar. Eu quero voltar pro zero e ver o mundo de outras cores, ter outro signo, cantar novas músicas netas das músicas mais lindas que a vida me trouxe, tocar as notas mais simples e olhar pro vento com a serenidade de um gramado que não some até chegar ao horizonte. A música e a letra. A verdade.

o riso de canto escondido

eu estava sentada no asfalto
e tinha tijolo
no asfalto eu desenhei um poema de cantar
você chegou, assim viu seu olho
que o outro estava a memirar
de frente pra ela
a sua melhor amiga
a primeira noite, sim, aquela
o asfalto derretido do calor de achar
achar em você uma vontade de rir
despir o espírito que queria sair
sair de ti e ela encontrar
eu ela, sou eu que sou ela
você ele quem era quem é
a gente cresceu e se desvirou
quem era?
eu sempre escrevi no asfalto
eu era e depois dele mudou
eu digo você
eu digo você eu no alto
aqui de cima o asfalto
pra gente lembrar pra rir
você me dizendo “não esquece”
que depois tanto tempo
meu amigo,
aquele amor calor ainda aquece
da memória a brasa
quando a gente quer
se se lembrar

in english, cricket

e eu vou seguir.
eu vou tentar acordar mais cedo pra aproveitar os dias livres,
ir pro museu desenhar no meu caderno aqueles rostos e corpos de outro tempo (esqueci de te contar que gosto de olhá-los fixamente até parecer que estão se mexendo).
vou pro trabalho ouvindo outras músicas e os teus livros eu vou adiar, por agora.
eu vou continuar.
vou continuar a sair de noite e cair na tentação de sentir sua falta ao olhar pro céu de dentro do trem,
vou seguir dando minhas risadas escandalosas, tirando fotos das caretas dos meus amigos, vou seguir sendo essa pessoa esquisita que só você sabe o quanto.
vou continuar indo ao parque e o verde vai doer porque era verde o fundo da sua imagem sorrindo ao beijo no rosto.
vou sair de tarde pra comprar chá e sentar no banco ouvindo música.
eu vou pensar no que quero da vida pela milésima quarta vez e esquematizar meu labirinto de novo.
vou chorar se achar sem querer sua foto sorrindo pra mim.
eu vou me arrepender de ter dito mais e feito menos,
me arrepender ainda mais por ter tantas lembranças escondidas debaixo das noites etílicas.
eu vou voltar pra casa.
vou me apaixonar por alguém e você vai me escrever bem neste momento, eu já sei.
e eu vou seguir,
sem você sentado comigo na areia como combinamos,
sem minha covinha do lado esquerdo que aparecia quando eu ria de você,
sem minhas tentativas de traduzir minhas piadas.
eu vou andar por aí
e eu vou voltar,
quem sabe te encontro num anoitecer na terra do Gaudí ou na do Lennon mesmo,
e um banco de praça estará lá de novo com nossos nomes flutuando, quem sabe uma toalha no gramado?
o nosso grilo de estimação sentado e rindo de lado,
eu vou seguir
eu vou sonhando.

A pele

Minutos, dias, ponteiros. Aquela vontade de ser o que não é, de ter nas mãos o que não tem, de berrar no meio da rua, sair cantando alto no meio da calçada, da sala, da mala, da bala, de toalha. Dizer todas as verdades ao mesmo tempo que a cabeça pensa, pensar e falar. É e foi e pronto e bom. Não ao medo, não à medida, não à noção. Noção de nada, noção não existe. É a vida, é uma. Fazer fotos com memórias, recitar poesias sem rimas com beijos que incham a boca e elas não voltam a ser o que eram. Falar com 2 línguas pra que ninguém deixe de entender, cantar em pensamento e tocar as paredes até chegar ao chão. Sonetos feitos a dois sem raciocinar, uma prosa, várias prosas e todos os litros de vinho e de cerveja. Correr sem meias sem solas, cair e ralar os joelhos. Falar, olhar e dar a volta em torno da Terra com o riso. A vida é no singular. As vidas. Todas, umas, algumas, duas, outras, estas, nossas. Adeus, o mundo girou. Olá.

o vão

Ela carrega dois livros na mochila, um pra cada humor. Quando nenhum a aquieta, permanece estática olhando fixamente as listras na camiseta do moço sentado no trem, visitando na memória as palavras ditas bem na frente do seu rosto pelos olhos mais profundos. Como dizem nas canções, queria parar o tempo, o tempo que leva, o tempo que demora, que passa em um segundo e meio, o tempo que leva o acaso na mochila e o derruba sobre as cabeças distraídas que transitam feito loucas pelos caminhos estreitos. Vezes flores, verde, sol e sons de bicho. Vezes barro, barranco, inverno a chover. Os olhos que riem, lindos, que brilham, que abaixam nos segundos que a memória vem dizer que ainda há um pouco de dor, que a sugam como um buraco negro, eles próprios negros, outras dimensões, um outro sistema solar bem ali, e não aponta. Quem vai dizer se é de encher o copo? Qual a porta certa pra descobrir o inteiro, o raro inteiro? Que perguntas pairam sobre as cabeças cheias dos números do mundo da semana? O espaço, o asfalto, os objetos espectadores de uma noite, aquela alma feita de ímã, feita de coisas que o escuro do mundo esconde, a caneta vermelha, as coisas que ela ainda precisa contar pra si mesma, o sentimento molhando a alma, as sensações que molharam a pele, as flores amarelas na árvore da esquina. A pele ainda arde, toda a superfície. No banho canta, fecha os olhos e esquenta a água do chuveiro elétrico, se lembra. Abre o vitrô pra sentir o frio confundindo o arrepio que veio. Dias e noites. Um copo na mão esperando o barulho d’água.

Lucky Strike

Eu andava pedindo alguma onda que me desse um caldo e me fizesse ficar toda ralada de areia. Agora ando vendo de longe a onda. Aquela onda, já vi tantas vezes, sempre de longe. E ela sempre acabava no meio do mar. Este marasmo que nomeia os meus dias está ficando embaçado e seco. Praia de tombo é tão melhor.
Um dia desses lembrei que nunca te escrevi, sempre começava e não conseguia terminar. Você merece cartas, e às vezes só consigo escrever com caneta no papel. Nada desses escritos aqui em que não se pode tocar as palavras, colocar as mãos no papel que já esteve nas mãos e nos olhos do outro que escreveu.
Eu não sou viciada em cigarros. Senti vontade de fumar e andar numa rua que eu nunca andei antes, num lugar onde nunca estive antes. Parar, sentar e não dizer nada. A vista verde e vento. Você do lado, calado e alguns segundos. Sentada abraçando os joelhos me lembro de todas as conversas e quero rir. Sinto algo tremendo por dentro. Eu tentando lembrar como é sua voz. Da primeira vez que nos falamos, não imaginava como sua voz soava diferente do que eu imaginava. Seu rosto é bom de olhar. É como quando se olha alguém que gosta, se enxerga beleza até onde não tem.
Estou aqui com milhões de palavras e não consigo escrevê-las. Percebo um medo de que você leia. Você está lendo. Eu escrevendo e eu não conseguindo mais. Eu não tenho medo de nada. Eu, aquela velha música e você. Me dê uma razão.
Me dê as imagens que você imagina, exatamente, com todo o detalhe que você pede. Escreva um poema em mim que eu não consiga mais apagar. Esqueça o passado e não viva o futuro agora e já. Coloque a música no ‘repeat’ até não ouvir mais nada. Vou ficar nas minhas ruas diárias vendo todos passarem sem meu cigarro. Todos passarem e os dias passando. Enquanto isso.