Eu não aguento mais. Não aguento mais dar desculpas a mim mesma, não aguento mais deixar pra depois. Não aguento mais essas alegrias superficiais e a incompletude crônica que parece estar grudada nas minhas costas. Eu não aguento mais não conseguir mais reproduzir palavras, ver os meses passando e aquela luz que fazia criar qualquer coisa não voltar a acender, não aguento minha cara no espelho me dizendo que eu não sei fazer isso direito. Não aguento mais não saber tocar minha guitarra que espera encostada na parede há tanto tempo, e a vida sempre me puxando pelo braço, impedindo que eu dê atenção ao que realmente importa. Eu não aguento mais ter que ser alguém na vida, ter que viver em função do dinheiro e fazer coisas que consomem o resto de inspiração que consigo achar dentro deste corpo. Eu não aguento mais ser gente grande com vida de adolescente, ser um nada pra alguéns que pensam ser tudo. Não aguento essa enxurrada de mentiras, essa mania que as pessoas têm de mudar de ideia do dia pra noite como se fosse a coisa mais normal do mundo. Eu não aguento mais ter tudo e faltar algo, correr em direção a algo que eu nem sei se existe. Parar em sombras que me queimaram e não saram nunca, as cicatrizes que espantam a pureza ou qualquer coisa escondida atrás de um sorriso que invade a alma como um corpo afogado no mar. Eu quero voltar pro zero e ver o mundo de outras cores, ter outro signo, cantar novas músicas netas das músicas mais lindas que a vida me trouxe, tocar as notas mais simples e olhar pro vento com a serenidade de um gramado que não some até chegar ao horizonte. A música e a letra. A verdade.